Semana de Arte Moderna

''O pensamento é o ensaio da ação'' -Sigmund Freud

Em 1922, durante três dias da semana de 11 a 18 de fevereiro, ocorreu no Teatro Municipal de São Paulo a Semana de Arte Moderna. Contando com a participação de artistas que propunham um novo tipo de arte, foi muito criticada pelo público e teve pouca repercussão, mas posteriormente foi considerada o ponto de partida do movimento modernista no Brasil.

Anteriormente à Semana de 22, já havia alguns indícios de que o movimento iria acontecer. Alguns artistas já estavam mudando suas técnicas, se distanciando do movimento vigente da época, explorando mais o conteúdo de suas obras. Alguns deles haviam entrado em contato com as vanguardas europeias, o que contribuiu para uma iniciativa de renovação do cenário artístico e literário brasileiro. Influenciados por elas, pretendiam utiliza-las para transformar a arte nacional, a procura de uma arte estritamente brasileira. Negavam o academicismo nas artes, e buscavam algo com certa distância daquilo que era produzido na Europa.

Na época, o Brasil passava por um momento marcado por conflitos políticos, sociais, econômicos e culturais. Essa fragilidade no cenário brasileiro deu um ponto de partida aos artistas, que desejavam redescobrir a identidade brasileira. Considerada o ponto de transição entre o velho e o novo, a SAM (Semana de Arte Moderna) foi um momento de explosão de novas ideias, no qual o artista tinha total liberdade de fazer a sua vontade em sua produção, frequentemente dando espaço ao nacionalismo.

Mesmo assim, quando as obras modernistas começaram a ganhar espaço entre os artistas brasileiros, foram muitas as críticas feitas às obras. Um grande crítico foi Monteiro Lobato, um escritor da época, que julgava esse novo estilo como fruto de uma lógica psicótica. Chegou ao ponto de ridicularizar as obras em seu artigo “Paranoia ou mistificação?”, onde dividia os artistas em dois grupos, “os que vêem normalmente as coisas e em consequência disso fazem arte pura”, e aqueles que “vêem anormalmente a natureza, e interpretam-na à luz efêmera, sob a sugestão estrábica de escolas rebeldes”. Foi nesse contexto que Mario e Oswald de Andrade juntaram artistas e intelectuais da época e montaram a Semana de Arte Moderna.

Um dos grandes obstáculos encontrado pelos artistas era conseguir o Teatro Municipal, que não cederia o espaço de graça. Assim, o Ministro Graça Aranha, grande incentivador do movimento de arte moderna que estava ocorrendo no Brasil, conseguiu vender dois milhões de sacas de café para a França, arrecadou o dinheiro necessário para o aluguel do local e patrocinou o evento. O que era pra ser um choque para o público, acabou sendo odiado por muitos. Mas a vontade de inovar era tanta que até boatos surgiram sobre a reação do público, com histórias em que Oswald de Andrade, um dos grandes idealizadores do evento, havia pagado os estudantes para vaiarem as apresentações.

O primeiro dia de exposição contou com uma conferência de Graça Aranha. O segundo dia se seguiu com Guiomar Novaes, que tocou no intervalo do espetáculo algumas obras clássicas. Mas o que realmente chamou a atenção do público foi a palestra de Menotti del Picchia sobre a arte estética, que recebeu uma mistura de vaias e aplausos do público, e o poema “Os Sapos” de Manuel Bandeira, que criticava o parnasianismo com suas regras e padrões de se fazer poemas. A noite acaba em confusão. Já no terceiro dia, quando Villa-Lobos se apresentou, recebeu fortes vaias da plateia, pois estava calçado com um sapato em um pé, e chinelo no outro, o que o público considerou desrespeitoso, mas que depois foi explicado como um calo inflamado no pé do músico.

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Apesar de tudo, a Semana de Arte Moderna não foi um evento tão importante na época, mas com o tempo foi ganhando força e se desdobrando em outros movimentos no Brasil. Foi uma semana onde novos conceitos foram difundidos, novos talentos apresentados, tudo com total liberdade de produção. Não havia nenhum padrão definido, e foram mal vistos pela elite da época (que era influenciada pelas formas estéticas europeias mais conservadoras) por que não seguiam os padrões característicos dos movimentos que estavam em vigor na época.


Semana de Arte Moderna - Um Só Coração
HISTORIA DO BRASIL SEMANA DE ARTE MODERNA
Semana de Arte Moderna 90 anos (Créditos: Jornal da Globo, arquivos)

Mesmo com a desaprovação da parte poderosa da cidade, o evento contou com a participação de aproximadamente 27 artistas, divididos entre artistas plásticos, escritores, músicos, arquitetos e outras áreas. Alguns dos nomes mais importantes que compareceram ao evento são Anita Malfatti, Victor Brecheret, Mario de Andrade, Oswald de Andrade e Heitor Villa-Lobos. O poeta Manuel Bandeira, também muito importante para o movimento, teve sua participação com seu poema recitado no segundo dia, mas não pôde estar presente pois estava com tuberculose.

Anita Malfatti, que estudou pintura em escolas no exterior, entrou e contato com o Expressionismo quando foi para a Alemanha, o que a influenciou muito. Um pouco depois, quando estava nos Estados Unidos, teve contato com o movimento modernista. Em 1917, já no Brasil, fez uma exposição artística que gerou bastante polêmica por seu caráter inovador, representando principalmente a parte marginalizada da sociedade urbana. Não ganhou aprovação da sociedade da época, e um tempo depois, as criticas que recebeu de Monteiro boato foram um grande incentivo para o acontecimento da Semana de Arte Moderna, da qual foi uma importante participante.


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Victor Brecheret foi outro artista que teve um forte envolvimento com o evento. Foi um escultor, considerado um dos principais representantes da arte moderna no Brasil, e participou da Semana de Arte Moderna expondo aproximadamente vinte de suas esculturas.


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Já Mario e Oswald de Andrade, os grandes pensadores do projeto, foram as figuras das quais o evento não aconteceria sem. Mario de Andrade (1893-1945), que estudou música, folclore, pintura, e foi crítico de arte em jornais e revistas, escreveu sobre diversos assuntos. Em seu primeiro romance, que escreveu sob um pseudônimo, defendia a paz e criticava a Primeira Guerra Mundial. Depois, em viagens pelo país, estudou sobre a história do Brasil, e escreveu livros de poesias com base em seus estudos sobre o folclore brasileiro. Em 1922, escreveu “Paulicéia Desvairada, que foi aprovada pelos modernistas pela ruptura com os padrões literários vigentes da época, e propunha uma nova forma de fazer poesia, com a presença de versos livres e neologismos. A partir de 1930, voltou-se para a análise dos problemas nacionais, produzindo poesias intimistas e poesias de caráter político, com linguagem agressiva de modo a combater injustiças sociais. Também produziu Macunaíma, único romance Modernista, considerada a obra mais importante do período. Era uma obra onde a influência das vanguardas europeias era evidente, com uma forte presença do surrealismo, cubismo e futurismo. A rapsódia, assim chamada pela mistura de lendas e mitos indígenas e folclóricos misturados com uma linguagem popular e oral de diferentes regiões do país, apresenta um nacionalismo crítico, onde os acontecimentos não seguem as convenções realistas, na tentativa de fazer um retrato do povo brasileiro (como no subtítulo do livro, o herói sem caráter, que representa o Brasil, um país sem identidade definida).


Prof. Marcelo Freire - Macunaíma é a síntese do Brasil

Oswald de Andrade (1890-1954), grande amigo de Mario de Andrade, foi jornalista, poeta, romancista e autor de peças teatrais. Costumava escrever com humor e ironia, se utilizando da linguagem coloquial para fazer críticas à burguesia. O autor estava sempre pronto para defender a valorização das origens e do passado do país, e propunha uma ruptura com os padrões da língua literária culta. Por todo o seu envolvimento no movimento, foi considerado um dos grandes nomes do modernismo brasileiro. Ele presencia toda a mudança do século e dos costumes da população, adquirindo uma postura mais radical, mais inovadora, sendo assim considerado o mais rebelde do movimento. Posteriormente, escreveu dois importantes manifestos modernistas (Manifesto da Poesia Pau-Brasil e Manifesto Antropófago), sempre com um caráter provocador. Com a Semana de Arte Moderna, e com todos os seus escritos, foi um grande colaborador para o modernismo se fixar no Brasil.



“A nunca exportação de poesia. A poesia anda oculta nos cipós maliciosos da sabedoria. Nas lianas da saudade

universitária.

Mas houve um estouro nos aprendimentos. Os homens que sabiam tudo se deformaram como borrachas

sopradas. Rebentaram.

A volta à especialização. Filósofos fazendo filosofia, críticos, crítica, donas de casa tratando de cozinha.

A Poesia para os poetas. Alegria dos que não sabem e descobrem.

Tinha havido a inversão de tudo, a invasão de tudo: o teatro de base e a luta no palco entre morais e imorais. A

tese deve ser decidida em guerra de sociólogos, de homens de lei, gordos e dourados como Corpus Juris”.

Manifesto da Poesia Pau-Brasil



O músico Heitor Villa-Lobos, maestro e compositor brasileiro, começou a estudar musica desde cedo. Participou da Semana de Arte Moderna, causando grande polêmica com sua performance, e no ano seguinte viajou para a Europa, ficando lá por muitos anos. Por todas as suas composições, foi considerado um grande representante da musica modernista no Brasil.

Cascavel - Heitor Villa-Lobos | Especial Semana de Arte Moderna #5

Manuel Bandeira, que participou do trio dos grandes escritores da Primeira Fase Modernista (junto com Oswald e Mario de Andrade), possuía um estilo simples de escrever, mais característico parnasiano. Foi o mais lírico dos poetas, apresentando temas cotidianos e universais. Foi considerado o mestre do verso livre do Brasil, e em suas obras era comum a valorização do cotidiano, o sentimentalismo, relações a efemeridade da vida, e a preferência por temas como morte, tristeza, desesperança, tédio, mas ligado à realidade brasileira, Na Semana de Arte Moderna, foi apresentado um poema seu intitulado "Os Sapos".


“O sapo-tanoeiro,

Parnasiano aguado,

Diz: - “Meu cancioneiro

É bem martelado.


Vede como primo

Em comer os hiatos!

Que arte! E nunca rimo

Os termos cognatos.”

Os Sapos


Eram todos artistas que possuíam um espírito de mudança, de transformação. Contando com a forte presença do nacionalismo, sempre negando os padrões estabelecidos pela elite conservadora da época, os artistas modernistas estavam sempre avançados, sempre pensando à frente de seu tempo, de tal forma que as obras que foram feitas na época poderiam facilmente ter sido feitas por um artista da época atual.

O que era apresentado na SAM tinha muito em comum com as vanguardas europeias, como o questionamento, a quebra das regras, a criação de novos padrões que fossem mais coerentes com a realidade vivida pelo povo no novo século. Elas influenciaram a arte no mundo todo, e foram cinco as correntes que mais tiveram força no Brasil: Cubismo, Dadaísmo, Expressionismo, Futurismo e Surrealismo.

O Cubismo, com uma maior presença entre os anos de 1907 a 1914, se mostrou mais forte na pintura. Mostrava-se através da decomposição e fragmentação das formas geométricas, buscando a subjetividade da obra através da vista de um mesmo objeto de vários ângulos diferentes. Apresenta uma realidade fragmentada, e teve como um de seus principais nomes o artista espanhol Pablo Picasso. O cubismo também foi muito difundido na literatura brasileira, onde era visível a sobreposição de eventos, relatos de muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo, assim como na pintura, onde era comum essa fragmentação.


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Já no Dadaísmo, que surgiu durante a Primeira Guerra Mundial, o foco era chocar a burguesia, trazendo para as obras as emoções causadas pela Guerra, como a agressividade e a indignação. Na literatura, foi caracterizado pela agressividade verbal, desordem nas palavras, incoerências e o abandono das regras formais da poesia.


"Para fazer um poema dadaísta

Pegue um jornal
Pegue a tesoura.
Escolha no jornal um artigo do tamanho que você deseja dar a seu poema.
Recorte o artigo.
Recorte em seguida com atenção algumas palavras que formam esse artigo e meta-as num saco.
Agite suavemente.
Tire em seguida cada pedaço um após o outro.
Copie conscienciosamente na ordem em que elas são tiradas do saco.
O poema se parecerá com você.
E ei-lo um escritor infinitamente original e de uma sensibilidade graciosa, ainda que incompreendido do público.”

Tristan Tzara, falando a respeito do movimento


Assim como no Dadaísmo, o Expressionismo buscava trazer emoções à tela, mas não aquelas provindas de guerras, e sim aquelas mais intimas dos homens, como seus medos, vícios e perturbações. Procurava mostrar a confusão causada pela renovação cultural que estava presente na Europa, transmitindo a situação em que as pessoas se encontravam.


Dance of the Whore of Babylon

Na Vanguarda Futurista, que surgiu com o Manifesto Futurista, pretendia negar o passado e o academicismo, pregando o desapego ao tradicionalismo, e pretendia levar o cientificismo, a tecnologia, a experimentação para a arte. Apresentava um novo tipo de beleza, baseado na velocidade e na elevação da violência.


"2. A coragem, a audácia, a rebelião serão elementos essenciais de nossa poesia

4. Nós reafirmamos que a magnificência do mundo enriqueceu-se de uma beleza nova: a beleza da velocidade, Um automóvel de corrida com seu cofre enfeitado com tubos grossos, semelhantes a serpentes de hálito explosivo... um automóvel rugidor, que correr sobre a metralha, é mais bonito que a Vitória de Samotrácia

7. Não há mais beleza, a não ser na luta. Nenhuma obra que não tenha um caráter agressivo pode ser uma obra-prima. A poesia deve ser concebida como um violento assalto contra as forças desconhecidas, para obrigá-las a prostrar-se diante do homem."

Manifesto Futurista


No movimento Surrealista, que surgiu após a Primeira Guerra, tinha como característica a utilização de concepções freudianas na arte; pregava que a arte deve surgir do inconsciente, sem a interferência da razão. É muito frequente elementos que remetem loucura e a fantasia.

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Na época, o evento não pareceu algo tão importante, porém foi extremamente marcante na cultura brasileira, contribuindo para uma nova avaliação dos valores da arte e de discussões intelectuais entre os brasileiros. Devido a falta de um caminho único a ser seguido pelos artistas, o Modernismo se desdobrou em vários movimentos diferentes, como o Movimento Pau-Brasil, o Movimento Verde-Amarelo e o Grupo Anta, o Movimento Antropofágico, e influenciou o movimento tropicalista, que ocorreu anos mais tarde. Representou uma renovação na linguagem, uma verdadeira ruptura com o passado, apresentando ideias e conceitos artísticos inovadores e ousados, que são percebidos na cultura brasileira até os dias atuais.
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Manuel Bandeira: "Os Sapos"

"Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro"

O poema moderno de Oswald de Andrade defende a ideia de que a linguagem coloquial deveria ser mais utilizada pelos brasileiros, já que é essa a "linguagem" mais utilizada na oralidade, e que representa melhor os brasileiros, e não a que a gramática considera correta. Critica a linguagem formal, utilizada pelo movimento vigente anterior, o parnasianismo, representando a diferença existente entre as duas linguagens com o primeiro e último versos ("Dê-me um cigarro", e "Me dá um cigarro", respectivamente), onde o primeiro representa o modo formal, distante do dia-a-dia dos brasileiros, e o último, o modo coloquial, utilizado no cotidiano.