Gerir Recursos Humanos como hobby

Uma estudante que gere outros nos seus tempos livres

Ana Sismeiro tem vinte anos. É aluna na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, e no tempo que lhe sobra entre as horas de estudo, é Diretora de Recursos Humanos na AIESEC. Tem ao seu cargo 80 jovens da sua idade.

Ser Diretora de Recursos Humanos

Quando questionada acerca de como é gerir 80 pessoas, a estudante de Ciências da Comunicação acredita que a sua função parece mais do que é: "Não sou eu que giro 80 pessoas, há várias equipas. Eu giro um determinado número de pessoas que garante que todos os restantes se estão a sentir bem."

No escritório do qual faz parte da Direção, só trabalham estudantes, que ao longo do semestre vão abandonando as suas funções. Mas Ana não considera que seja uma grande perda: "Eu preocupo-me com a qualidade das experiências que proporcionamos. Não é por não gostarem que estão a sair... e sempre representam novas vagas para novos membros".


Ser Diretora de Recursos Humanos - ou de Gestão de Talentos, em termos mais fiéis à organização que representa, a AIESEC - é algo que lhe dá muito prazer. Entre 8 departamentos, existem pessoas muito diferentes, que têm maneiras próprias de motivar aqueles à sua volta e incentivá-los a trabalhar em conjunto. Ana afirma gostar de aprender novas técnicas e de interagir com todos os membros do escritório para assegurar o seu bem-estar.


Esta experiência na área de Recursos Humanos, que tem a duração de dois meses, já está a criar efeitos para o futuro: "Eu vim para Ciências da Comunicação por ser um curso abrangente, mas esta está a ser uma área da qual gosto muito e na qual poderia continuar a trabalhar." É membro na AIESEC há pouco mais de um ano, e antes de ser Diretora foi Gestora de um Projeto Internacional - "foi uma experiência muito desgastante, lidar com todos os internacionais. Agora lido com pessoas que estão mais perto de mim e que eu posso ajudar mais facilmente, com a minha experiência. "

o dia-a-dia "on the job"

A AIESEC é uma organização gerida unicamente por estudantes, e que se dirige aos estudantes também. Assim, todos os membros que compõem a Direção são tendencialmente bastante jovens. Ana Sismeiro é uma dos oito Diretores da AIESEC na Universidade Nova de Lisboa, que tem ainda uma Presidente.

Cada Diretor é responsável por um departamento, e tem ao seu cuidado dois Team Leaders, que são por sua vez responsáveis pela sua equipa e gestão dos membros. Todos os Team Leaders são membros com experiência de pelo menos três meses.


Ana Sismeiro atribui uma grande importância aos estudos e afirma sem dúvidas que a Faculdade é a sua prioridade. Mas o trabalho da AIESEC não é impeditivo: "Não falto às aulas, concilio sempre com o estudo e procuro sempre o equilíbrio. Há dias que não me dedico à AIESEC para me focar no estudo, mas o contrário também acontece. Esta área permite-me gerir o meu tempo entre a Faculdade, a AIESEC e os meus amigos, porque não é demasiado exaustiva. Tenho muito apoio."


Em relação à atividade específica da sua função, Ana explica que não existe uma semana típica ou igual, porque "aquilo que é preciso ser feito numa determinada semana muda sempre para a seguinte". O que é constante são as duas reuniões que tem por semana, uma com a restante Direção, e outra com os Team Leaders responsáveis pela área de Recursos Humanos. Nestas reuniões revê-se o que aconteceu na semana anterior e planeia-se a seguinte.

A nova Diretora tem uma visão para a área que passa em muito pelas experiências que teve anteriormente na organização. Pensa todos os dias: "Nunca senti apoio da área de Recursos Humanos, e quero que esta área se torne acessível, que os membros sintam que podem pedir ajuda ou mesmo só conversar. Não sei se vou conseguir fazer isso no meu mandato, mas prefiro falar pessoalmente com 80 pessoas do que enviar questionários. Quero um contato mais pessoal."


Todos os dias há tarefas para realizar, embora ninguém lhe diga o que fazer. Ana diz que para os projetos mais prolongados, é só garantir que tudo está a correr como previsto e ir dando continuidade. Mas também tem outros projetos mais pessoais: "Desde que entrei que sei o que gostava de ter visto e então estou a tentar mudar a forma como se fazem as coisas. O meu trabalho vai muito de encontro aos outros, motivá--los e apoiá-los, portanto preciso de ir conversando com os membros para conseguir perceber as suas necessidades e os seus problemas, e conseguir colmatá-los."

Big image
PEDRO GRANACHA, ANA SISMEIRO E DIOGO PASCOAL, OS REPRESENTANTES DO CORPO DE LIDERANÇA DA ÁREA DE RECURSOS HUMANOS

o desenvolvimento da liderança

A Diretora de Recursos Humanos sabe que trabalha numa área de suporte, ou seja, não realiza as operações de relações internacionais pelas quais a AIESEC é reconhecida. Assim sendo, fala de um impacto indireto, uma vez que cada Team Leader faz parte de uma área com um Diretor próprio, ao qual recorrem mais frequentemente. Ainda assim, "Quando tivemos a primeira ronda de reuniões com Team Leaders, para saber como estava a correr a experiência e quais eram as expectativas daí para a frente, quis ser eu a fazê-las a todas. Por mais que fosse só a primeira vez. O resultado foi sempre recompensador porque sentia que acabavam mais seguros daquilo que estavam a fazer ou com ideias de melhorar algo em concreto."


Ana Sismeiro incentiva os pequenos gestos, os agradecimentos, as ações do dia-a-dia. A felicidade no local de trabalho ajuda bastante a motivação, assegura. E nos últimos dois meses, em que aprendeu a gerir Recursos Humanos, literalmente fazendo-o, já vê mudanças: "os membros já aprenderam bastante, têm muito mais informação e estão mais desinibidos."


A interação que existe entre os membros na AIESEC, é uma ponte para o mundo exterior. Olhando à volta no escritório e nos vários lugares da Universidade onde estes se encontram, vê-se o impacto que a experiência organizacional tem na forma como lidam com equipas de trabalho, como gerem o seu tempo e como intervêm nas aulas. A par do desenvolvimento de liderança existe um grande desenvolvimento pessoal, ao nível de várias capacidades.

Mas entre 80 jovens, "nem todos são líderes", admite. Diz que depende da personalidade de cada um, e da razão pela qual se juntaram à organização. Todos têm potencial, garante, porque é o que se verifica no processo de recrutamento. Quem não aproveita a experiência ao máximo, e opta por se manter mais reservado e menos presente na vida que caracteriza este escritório, tem maior dificuldade em ativar a sua liderança. No entanto, Ana acredita que, se abrisse oportunidades para cargos mais preponderantes na hierarquia do núcleo local, teria candidatos. "Poucos, mas bons", acrescenta, "mas suficientes para fazer valer a pena".

Big image
A ELEIÇÃO DOS NOVOS TEAM LEADERS

recursos humanos em atividades

Ana Sismeiro dedica muito do seu tempo a planear atividades que incluam todos os membros do escritório, de forma a estabelecer o espírito de equipa entre os jovens estudantes. Para além disso, é responsável pelo seu desenvolvimento, passando pela formação e pelo treino. Para a ajudar, tem dois Team Leaders, que segundo a Diretora, "são muito proativos, têm muitas ideias e aplicam-nas". Ao longo destes dois meses, aprendeu que se deve dirigir à equipa de Recursos Humanos, com ideias pensadas, mas não definidas, e partir daí. "Gosto de dar ideias e discutir como eles, não gosto de pedir para executarem algo que é só da minha cabeça. Tem a ver com o meu estilo de liderança."

Para além da sua equipa, a jovem de 20 anos tem também ao seu dispor uma rede de Diretores de Recursos Humanos que trabalham nos vários escritórios da AIESEC em Portugal. Nesta, partilham-se ideias, frustrações e ferramentas de gestão. "Funciona como uma terceira equipa - como estamos todos a passar pelo mesmo, apoiamo-nos mutuamente".


O maior desafio que encontra nesta sua nova função é garantir que os membros comparecem às atividades que organiza, sejam elas os encontros mensais ou formações apoiadas por empresas. E uma vez que após a sua tomada de posse, o recrutamento resultou em 44 novos membros, duplicando a estrutura anterior, perdeu-se a familiaridade. "Quando éramos poucos, os membros motivavam-se facilmente uns aos outros. Agora que somos muitos, eles ficam envergonhados e é mais fácil passar despercebido."

A AIESEC é uma plataforma de desenvolvimento pessoal e de liderança, na qual o processo de aprendizagem é constante. Apesar de já ter alcançado o cargo de Diretora, com apenas pouco mais de um ano de experiência organizacional, Ana Sismeiro não deixa de olha para trás e ver o que teria feito diferente nos últimos dois meses. Mas ainda tem até Janeiro para gerir Recursos Humanos, e não tem medo de aprender com os seus próprios erros.

Reportagem realizada no âmbito da cadeira de Géneros Jornalísticos

Por Ana Mafalda Oliveira, aluna nº 37867