Charles Bukowski

O Velho Safado

Henry Charles Bukowski Jr

Charles Bukowski, ou O Velho Safado (apelido que ganhou por seu nada normal estilo de vida) foi um poeta, contista e romancista estadunidense nascido na Alemanha. Sua obra de caráter (inicialmente) obsceno e estilo totalmente coloquial, com descrições de trabalhos braçais, porres e relacionamentos baratos, fascinaram gerações que buscavam uma obra com a qual pudessem se identificar.

Com uma dose de humor negro, sarcasmo e zero de pudor, vemos episódios da sua vida conturbada que paira desde ao mar de fumaça em que vive, a indiferença que sente pelo pai, os porres, a vida sem sucesso de um adulto classe média refém do proletariado e a cabeça de um jovem que acaba de se perceber inserido ao mundo, até ideias de suicídio, assassinatos, princípio de loucura e coisas do tipo.


Ele rompe com todos os paradigmas de forma e beleza, seus romances são como casos narrados aleatoriamente sem nenhuma ordem ou linha de pensamento a ser seguida, são os fatos pelos fatos, é um parnasiano às avessas.


Além de ter uma narrativa extremamente atrativa e uma gama de palavrões, seus livros contam nua e cruamente como é a realidade de muitos que caminham com a manada todos os dias pra no fim, de alguma forma, poder comer. Ele critica e julga a todos com o seu gênio sarcástico, mas para os que se identificam de alguma forma é válido também avaliar seus escritos como uma fuga total da tristeza. Uma vida arrastada. Uma solidão disfarçada. É de uma melancolia tremenda. E você vai querer ler ainda mais.

Barfly - Condenados pelo vício (1987) [Dublado]
Barfly – Condenados pelo Vício é um filme de 1987 que é uma semi-autobiografia do escritor Charles Bukowski durante o tempo que foi alcoólatra em Los Angeles, Califórnia. O roteiro de Bukowski foi encomendado pelo cineasta francês Barbet Schroeder - que foi publicado, com ilustrações do autor, ainda quando a produção cinematográfica não estava concluída. Barfly é estrelado por Mickey Rourke e Faye Dunaway, com direção de Schroeder. O filme também apresenta uma aparição silenciosa do próprio Bukowski.

Trechos de sua obra

“Por que há tão poucas pessoas interessantes? Em milhões, por que não há algumas? Devemos continuar a viver com esta espécie insípida e tediosa? O problema é que tenho de continuar a me relacionar com eles. Isto é, se eu quiser que as luzes continuem acesas, se eu quiser consertar este computador, se eu quiser dar descarga na privada, comprar um pneu novo, arrancar um dente ou abrir a minha barriga, tenho que continuar a me relacionar. Preciso dos desgraçados para as menores necessidades, mesmo que eles me causem horror. E horror é uma gentileza.”

"Tenho lido os filósofos. São uns caras realmente estranhos, engraçados e loucos. Jogadores. Descartes veio e disse: é pura bobagem o que esses caras estão falando. Disse que a matemática era o modelo da verdade absoluta e óbvia. Mecanismo. Então, Hume veio com seu ataque à validade do conhecimento científico causal. E depois veio Kierkegaard: “Enfio meu dedo na existência – não tem cheiro de nada. Onde estou?”. E depois veio Sartre, que sustentava que a existência é absurda. Adoro esses caras. Embalam o mundo. Será que tinham dor de cabeça por pensar dessa forma? Será que uma torrente de escuridão rugia entre seus dentes? Quando você pega homens como esses e os compara aos homens que vejo caminhando nas ruas ou comendo em cafés ou aparecendo na tela da TV, a diferença é tão grande que alguma coisa se contorce dentro de mim, me chutando as tripas."

"Das 5 irmãs, Cass era a mais moça e a mais bela. E a mais linda mulher da cidade. Mestiça de índia, de corpo flexível, estranho, sinuoso que nem cobra e fogoso como os olhos: um fogaréu vivo ambulante. Espírito impaciente para romper o molde incapaz de retê-lo. Os cabelos pretos, longos e sedosos, ondulavam e balançavam ao andar. Sempre muito animada ou então deprimida, com Cass não havia esse negócio de meio-termo. Segundo alguns, era louca. Opinião de apáticos. Que jamais poderiam compreendê-la. Para os homens, parecia apenas uma máquina de fazer sexo e pouco estavam ligando para a possibilidade de que fosse maluca. E passava a vida a dançar, a namorar e beijar. Mas, salvo raras exceções, na hora agá sempre encontrava forma de sumir e deixar todo mundo na mão."

"Somos finos como papel. Existimos por acaso entre as percentagens, temporariamente. E esta é a melhor e a pior parte, o fator temporal. E não há nada que se possa fazer sobre isso. Você pode sentar no topo de uma montanha e meditar por décadas e nada vai mudar. Você pode mudar a si mesmo para ser aceitável, mas talvez isso também esteja errado. Talvez pensemos demais. Sinta mais, pense menos."

O Pássaro Azul

Há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica aí dentro,
não vou deixar
ninguém ver-te.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu despejo whisky para cima dele
e inalo fumo de cigarros
e as putas e os empregados de bar
e os funcionários da mercearia
nunca saberão
que ele se encontra
lá dentro.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica escondido,
queres arruinar-me?
queres foder-me o
meu trabalho?
queres arruinar
as minhas vendas de livros
na Europa?
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado esperto,
só o deixo sair à noite
por vezes
quando todos estão a dormir.
digo-lhe, eu sei que estás aí,
por isso
não estejas triste.
depois,
coloco-o de volta,
mas ele canta um pouco lá dentro,
não o deixei morrer de todo
e dormimos juntos
assim
com o nosso
pacto secreto
e é bom o suficiente
para fazer um homem chorar,
mas eu não choro,
e tu?
Bluebird animation based on Charles Bukowski's poem