mito 5

"O lugar onde melhor se fala português é o Maranhão"

Historia da língua no Maranhão

Os maranhenses usam a forma para tu leres, nem por isso eles são os que “falam mais certo” o português brasileiro. Por quê? Porque o que acontece com o português do Maranhão em relação ao português do resto do país é o mesmo que acontece com o português de Portugal em relação ao português do Brasil: não existe nenhuma variedade nacional, regional ou social que seja “melhor”, “mais pura”, “mais bonita”, “mais correta” que outra. Toda variedade lingüística atende às necessidades da comunidade de seres humanos que a empregam.Toda variedade lingüística é também o resultado de um processo histórico próprio. Se o português de São Luís do Maranhão e de Belém do Pará, assim como o de Florianópolis, conservou o pronome tu com as conjugações verbais lusitanas, é porque nessas regiões aconteceu, no período colonial, uma forte imigração de açorianos, cujo dialeto específico influenciou a variedade de português brasileiro falado naqueles locais.

Errado ?

Os defensores desse mito não se dão conta de que, ao utilizarem o critério prescritivista de correção para sustentá-lo, se esquecem de que os mesmos maranhenses (e paraenses e amapaenses...) que dizem tu és, tu vais, tu foste, tu quiseste também dizem: Esse é um bom livro pra ti ler, em vez da forma “correta”: Esse é um bom livro pra tu leres. Ou seja, eles atribuem ao pronome ti a mesma função de sujeito que em amplas regiões do Brasil, nas mais diversas camadas sociais (cultas inclusive), é atribuída ao pronome mim quando antecedido da preposição para e seguido de verbo no infinitivo: Para mim fazer isso vou precisar da sua ajuda – uma construção sintática que deixa tanta gente de cabelo em pé.

" TU " por "VOCÊ"

No Maranhão (como também no Pará e em outras áreas do Norte) ainda se usa com grande regularidade o pronome tu, seguido das formas verbais clássicas, com terminação em –s característica da segunda pessoa: tu vais, tu queres, tu dizes, tu comias, tu cantavas etc. Na maior parte do Brasil, como sabemos, devido à reorganização do sistema pronominal, o pronome tu foi substituído por você. O pronome tu parece cada vez mais circunscrito a determinadas regiões e, quando ainda é usado – como por exemplo em alguns falares característicos de certas camadas sociais do Rio de Janeiro e, de modo mais amplo, no Rio Grande do Sul – o verbo assume a forma da terceira pessoa: tu vai, tu foi, tu veio, tu fica, tu quer, tu deixa disso etc., que caracteriza também a fala informal de algumas outras regiões. Em Pernambuco, por exemplo, é muito comum a interjeição interrogativa “tu acha?” para indicar surpresa ou indignação
Mito 5º - " O lugar onde melhor se fala português no Brasil é o Maranhão

Existe certo e o errado?

Numa entrevista à revista Veja (10 set. 1997), Pasquale Cipro Neto disse que é “pura lenda” a idéia de que o Maranhão é o lugar do Brasil onde melhor se fala português.No livro “Preconceito Lingüístico”*, o autor desmistifica no mito 5, o fato de que o Maranhão é o lugar onde melhor se fala o português. Seus argumentos giram em torno de pesquisas sociolingüísticas que afirmam o fato do melhor falar não depender da região geográfica. Como ele mesmo cita no livro :



“Toda variedade lingüística atende às necessidades da comunidade de seres humanos que a empregam. Quando deixar de atender, ela inevitavelmente sofrerá transformações para se adequar às novas necessidades. Toda variedade lingüística é também resultado de um processo histórico próprio, com suas vicissitudes e peripécias particulares”.


Bagno cita também um exemplo de uma entrevista onde o professor Pasquale Cipro Neto diz que realmente o português do Maranhão não é o melhor falado, e sim, que o carioca é o cidadão que melhor fala português. O autor usa essa ilustração da entrevista de Pasquale, para reforçar sua idéia de que não há local onde se fale o melhor ou o pior português, e sim que isso depende da posição social que o brasileiro possui diante da norma culta do português.

Preconceito linguístico

Segundo Marcos Bagno, autor do livro “Preconceito Linguístico – o que é, como se faz.”, esse tipo de preconceito nasce da ideia de que há uma única língua portuguesa correta, que é a ensinada nas escolas, está presente nos livros e dicionários e baseia-se na gramática normativa. Como no Brasil a educação não é de fácil acesso a todas as pessoas, apenas uma parcela da população (aquela que tem uma melhor condição econômica) tem acesso ao estudo da língua “correta”, enquanto a outra é considerada “sem língua”, já que a língua-padrão não engloba as variações, gírias, que representam o modo como essas pessoas falam.É importante perceber que a língua que falamos não é a mesma que escrevemos,portanto ninguém fala errado, já que e a escrita não é apenas uma forma de transcrever o que dizemos em forma de símbolos e a sua função é garantir a comunicação efetiva, ou seja, se esse fim se cumpre, a comunicação e a língua utilizadas estão “corretos”.
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