Lygia Fagundes Telles

O Jardim Selvagem

Uma Breve Biografia

Nasceu e vive em São Paulo. Considerada pela crítica uma das mais importantes escritoras brasileiras, publicou ainda na adolescência o seu primeiro livro de contos,Porão e sobrado (1938). Estudou direito e educação física antes de se dedicar exclusivamente à literatura. Foi eleita para a Academia Brasileira de Letras em 1985 e em 2005 recebeu o Prêmio Camões, o mais importante da literatura de língua portuguesa.

Mulheres em Literatura

A União Brasileira de Escritores (UBE) indicou a escritora Lygia Fagundes Telles para o Prêmio Nobel de Literatura. A indicação, por unanimidade, foi enviada hoje (3) para a Academia Sueca.

“Lygia é a maior escritora brasileira viva e a qualidade de sua produção literária é inquestionável”, diz o presidente da entidade, Durval de Noronha Goyos, em comunicado à imprensa.

Paulistana, a autora tem obras traduzidas para o alemão, espanhol, francês e inglês; italiano, polonês, sueco e tcheco, além de adaptações de suas obras para o cinema, teatro e televisão. Recebeu prêmios como Camões (2005) e Jabuti (1966 e 1974).

Lygia é fundadora da UBE e faz parte do Conselho Diretor da instituição. São dela obras comoAs Meninas e As horas nuas.

O Nobel de Literatura é o maior prêmio literário concedido desde 1901. É atribuído a um autor de qualquer nacionalidade que tenha uma produção de destaque no campo literário. A produção inclui a obra inteira desse escritor, seus principais livros, sua mentalidade, seu estilo e suas filosofias, não distinguindo uma obra em particular.

A Academia Sueca é quem escolhe o escritor. O anúncio é feito em outubro. Em 2015, a escritora e jornalista bielorrussa Svetlana Alexievich, 67 anos, foi a 14ª mulher escolhida pela Academia Sueca.

O Jardim Selvagem

Neste conto os acontecimentos da abrangem cerca de três meses e meio a quatro meses, do casamento de Ed e Daniela até o desfecho. Em O Jardim Selvagem, de 1965, a personagem que atua como narrador é uma criança, e será sob o seu ponto de vista que o leitor verá os temas adultos – a relação matrimonial, o preconceito, a morte – serem analisados. Na primeira linha da narrativa, Ed, uma das personagens, refere-se a outra, Daniela, comparando-a a “um jardim selvagem”. Ainda não se tem nenhuma informação sobre as personagens, mas, com o uso dessa expressão para designar Daniela, a primeira “isca” foi lançada ao leitor. entretanto, lança um novo componente para manter um clima de suspense na história: por que Ed não convidou a família para o casamento? Pombinha conta para Ducha que sonhara com Ed, “ainda na noite passada” (p. 68) e que ficara nervosa por “ter sonhado com dentes nessa mesma noite” (p. 68). E Pombinha completa: “Você sabe, não é nada bom sonhar com dentes” (p. 68). Um dia, Daniela matou com um tiro o cachorro Kléber, por ele estar muito doente, sofrendo muito. Dois meses depois” tem início a quinta parte da narrativa, Daniela telefona para avisar que Ed está muito doente. Ducha leva “o maior susto do mundo” (p. 72) ao saber disso. Pergunta a Pombinha sobre o comportamento de Daniela, ao que a tia responde que ela “tem sido dedicadíssima, não sai de perto dele um só minuto” (p. 73). O médico disse a Pombinha “que nunca encontrou criatura tão eficiente, tão amorosa, tem sido uma enfermeira e tanto” (p. 73). A seguir, ocorre o desfecho do conto. Conceição dá a notícia a Ducha que Ed “tinha se matado com um tiro” . Ducha imagina Daniela de luto, com uma luva preta.

A CONSTRUÇÃO DE IDENTIDADES FEMININAS EM “O JARDIM SELVAGEM”

A obra de Lygia Fagundes Telles destaca-se no cenário da literatura brasileira das últimas décadas pela temática da liberação da mulher em relação aos modelos tidos como padrões pela sociedade tradicional, marcados pela dominação masculina. Em suas narrativas, ela engendra personagens femininas construindo sua própria história e vivenciando experiências que antes eram incompatíveis com a condição de seu sexo. De maneira ao mesmo tempo simples e profunda, a autora constrói suas personagens femininas de modo a lhes por a nu a alma e lhes traduzir (as) angústias e aspirações. De acordo com Lemaire (1994, p. 65), as “obras de um autor [...] não são produtos de um gênio autônomo e autoconsciente, mas expressões de conflitos inconscientes, temores e desejos não admitidos abertamente [...]”; muitos desses conflitos estão arraigados ao inconsciente feminino de toda uma coletividade, pois aí foram plantados pela ideologia patriarcal; o/a escritor/a apenas os descreve. Um dos temas preferidos por Telles é o casamento, visto não mais como a realização máxima na vida da mulher, mas como fonte constante de conflitos e de perda de individualidade; as mulheres que retrata são “reais”: algumas fortes, autoritárias, egoístas,outras, submissas, indefesas, fúteis; muitas vezes, experienciando casamentos desequilibrados. A figura masculina, todavia, nem sempre aparece como a presença dominadora e opressora do patriarcado; eventualmente, os problemas conjugais assumem outras configurações, como o caso do conto “Jardim selvagem”, objeto dessas reflexões.
Manuel da Costa Pinto entrevista Lygia Fagundes Telles | Revista Vitrine