URUGUAIOS CAEM DE AVIÃO NOS ANDES

Uruguaios sobrevivem se alimentando de carne humana

A história começou no dia 12 de outubro de 1972. A tripulação saiu de Montevidéu, com destino a Santiago do Chile, mas, com o tempo muito ruim para atravessar a cordilheira dos Andes, parou para uma escala forçada na cidade argentina de Mendoza. O voo foi remarcado para o dia seguinte, às 12h30. Os pilotos, Julio Ferrádas e Dante Lagurara, tentaram adiar a partida mais uma vez. Ao que os militares presentes responderam: "Ustedes son unos maricones". Por volta de 15h30, os pilotos pediram que os passageiros apertassem os cintos. O avião perdeu altitude uma primeira vez. Na segunda, foi arremessado contra uma montanha e explodiu. O rombo no casco foi preenchido pela neve.

Num primeiro momento, fez-se silêncio dentro da aeronave. Segundos depois, os sobreviventes, na maioria apenas com ferimentos leves, começaram a chorar e gritar. Havia sangue e corpos mutilados. Uma hora depois, a noite caiu. Naquele ponto, a 4 mil m de altitude, a temperatura chegava a -30 ºC. Encolhidos, os jovens se abraçaram dentro do casco.


Depois de dez dias, toda a comida acabou. Não se sabe bem como apareceu a sugestão de comer carne humana. "Uma pessoa comentava aqui, outra ali. Quando nos demos conta, estávamos convencidos de que, se necessário, teríamos que nos alimentar do corpo de quem não sobreviveu", diz Carlitos Páez, que era estudante de agronomia e hoje é dono de uma agência de publicidade.

Não foi uma decisão imediata: na falta de comida e de animais para caçar, os sobreviventes haviam tentado comer até o couro das roupas. A iniciativa que serviu de estopim para o canibalismo veio do estudante Nando Parrado, que perdeu a mãe e a irmã na queda do avião. Ele conversava com Páez sobre sair novamente em excursão em busca de ajuda. Quando o amigo alegou que ele não iria aguentar a caminhada por falta de alimento, Parrado respondeu: "Então vou cortar a carne de um dos pilotos. Afinal de contas, eles nos meteram nessa confusão".


Por volta de 12h45 de 22 de dezembro de 1972, uma sexta-feira, os sobreviventes ouviram o som de helicópteros. Pelo rádio, já sabiam que a dupla tinha sido bem-sucedida. Ainda assim, só acreditaram que o pesadelo estava para acabar quando viram descer homens vestindo jaquetas vermelhas e carregando macas. O local era de tão difícil acesso que os bombeiros foram deixados ali e prepararam as vítimas para o resgate, que só aconteceu no dia seguinte.


Os sobreviventes foram levados para Santiago, para ser tratados de fraturas, queimaduras, escorbuto e desidratação. E dali para Montevidéu, onde foram recebidos com festa, no dia 28 de dezembro. Num primeiro momento, afirmaram que viveram à base de queijo e chocolate. Mas logo admitiram que só sobreviveram a 72 dias em condições extremas porque romperam um tabu. Revoltadas, muitas pessoas protestaram contra a atitude. A polêmica ainda ronda os sobreviventes. Todos voltaram ao local, hoje conhecido como Vale das Lágrimas. Os destroços congelados da aeronave ainda estão lá, assim como os corpos, identificados e enterrados.