Rafael Batista

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Quem sou eu? "Perguntas permanentes, respostas provisórias..."

Eis aí uma questão que desde sempre atormenta o homem. Ao lado do eterno "qual o sentido da vida?", responder quem se é surge com um dos desafios permanentes da vida. Até porque, como disse Heráclito, nem nós nem o rio será sempre o mesmo...


Mas depois de muita reflexão, lembrei-me de um texto, meio conto meio crônica, que escrevi em 2009, primeiro de uma série intitulada "Biografia em fragmentos", que teve mais uns três ou quatro tímidos escritos.


Creio que, mesmo com a liberdade que a ficção permite e possibilita, algumas verdades se impõem, contrariando os ornamentos da estética. Ei-lo:


"Culpava a infância pelos insucessos e fracassos da vida adulta. Queria ter com o próprio Freud, não fosse o mero detalhe de ele ter morrido há décadas. Não fizera a pré-escola, por isso complicava-se com direito e esquerdo, a lateralidade que a tia deveria ter ensinado aos que brincam de corre-cutia durante anos na escolinha colorida de borracha. Trancara-se no quarto desenhando, a la Exupèry, jibóias que engoliam elefantes, abelhas que pareciam anjos, anjos que eram pura garatuja.


Lembrava-se muito mal da mangueira no quintal, grande e generosa em frutos, em sombra, em brinquedos que qualquer criança saberia inventar nela e com ela. Ressentia-se de não ter lido em criança "Meu pé de laranja lima". Talvez o ajudasse a estabelecer contato com a árvore. Só fora ao circo aos vinte anos. Chorou a felicidade de ver seus preconceitos virem abaixo quando o palhaço lhe arrancou um sorriso esfuziante. O aperto no peito acompanhava a tensão dos acrobatas. Voou sem sair do lugar.


A infância parecia-lhe uma manhã, dessas em que se acorda às dez e quando menos se percebe já é hora do almoço, iniciando a tarde. Não sabia ou não queria saber, porém, que o esquecimento é também uma forma de memória, e que, se quisesse, poderia visitá-la. Lembraria oportunamente do cheiro de mate e pão com menteiga, da barriga enconstada no chão quente da calçada de casa ao ver os carros passarem na rodovia, pensando alto: "Este é o meu!". Lembraria com certeza da história do Barba Azul, contada pela doce professora, ou do cheiro de gordura da massa de modelar feita em sala de aula, do tempo de pai e mãe inteiros, sem gritos. De repente ele descobriria que o esquecimento é na verdade seu álibi diante das fraquezas. Preferia, no entanto, acordar às dez para não ver o dia começar com a luz e a lucidez do sol."



Esse e outros textos fazem parte de um blog abandonado que insiste em se fazer presente de vez em quando em minha vida: http://www.casadoquengo.blogspot.com.br



Entre verdades e mentiras, entre realidade e ficção, imagens vão revelando vida, palavras se mostram como fagulhas de identidade, recolhidas com paciência nessa penosa construção de nós mesmos.


Um pouco de cada coisa, tudo junto e misturado...

Sempre fujo de perguntas do tipo "qual o seu livro favorito?" ou "qual o seu prato predileto?". Por que me dar ao trabalho de responder tais questões se o fato de ler é o que interessa, se a leitura basta, posto que é descoberta, reencontro, aventura, etc (e o etc é o mais importante, certo!).


De qualquer forma, vamos aos meus interesses. Listarei aleatoriamente, num brainstorm alucinado:


Gosto de ler, de leitura, de literatura, da musculatura da palavra, da abstração da palavra, da palavra ENFIM...


Gosto de quinta e sexta-feira, de sábado à noite, estou aprendendo a me dar com o domingo. Ele tem sido bom comigo.


Prefiro calor ao frio. Gosto do número 21 e creio em Divindades.


Não me envergonho de comprar pouca roupa e gastar mais com livros, nem de trocar a caminhada salutar pela cerveja com amigos (não me julguem, por favor).


Sou professor e professo isso com todo meu orgulho, porque gosto de gente. Gente fina, gente estranha, gente louca e sã, gente é que move o mundo, o dia, a história das civilizações.


Gosto de filosofia e história, mas penso em estudar Psicanálise. Quero ser doutor, um dia...


Desejo que as salas de aula do mundo inteiro sejam ambientes com melhores energias, com mais amor e menos hierarquia... Quero ser mais aluno e menos professor.


Quero muitos filhos ou só filhos. Pensando bem, quero filho, assim mesmo no singular para poder partilhar a singularidade dessa experiência. Na verdade, quero só ver mesmo se é tudo isso que dizem mesmo ou se é só propaganda barata.


Quero envelhecer, como disse o poeta,"certamente com a mente sã/ me renovando todo dia e a cada manhã". Viver as fases da lua, com calma, sem pressa, que pressa nada resolve.


Quero continuar escrevendo essas coisas e, depois de um tempo, me surpreender relendo e vendo que tudo mudou!






O que me move?


Há quem seja movido por muitas coisas.

Eu sou movido por muitas causas. Sim, eu digo.


Sou apaixonado pela ancestralidade que se inscreve em minhas raízes africanas. Por isso a luta contra o racismo, a discriminação, a segregação me move.


Sou professor. Por isso a luta por uma escola pública de qualidade me move. Quero, ainda que digam "utopicamente", lutar por uma educação gratuita que seja a um só tempo, formação e intervenção.


Essas lutas me movem!