O CASAMENTO

como instituição social

Significado do casamento século - XIX e XXI

O casamento, nos dias atuais, é, em sua maioria, motivado apenas pelo amor e comprometimento entre duas pessoas. Antigamente, por outro lado, era visto como modo de adquirir poder e dinheiro - a maioria dos matrimônios se dava por puro interesse. Um dos costumes presentes naquela época (e também na obra Senhora), era o dote, que consiste no estabelecimento de uma quantia de bens e dinheiro oferecida a um noivo pela família da noiva, para acertar o casamento entre os dois. Não passava de apenas uma fachada.

Trecho do livro Senhora

- Conhece o Amaral?

- Qual deles? perguntou o velho um tanto acanhado.

- Manuel Tavares do Amaral, empregado da alfândega; disse a moça consultando sua carteirinha.

Tenha a bondade de tomar nota. Não é rico, mas possui alguma cousa; ajustou o casamento da filha

Adelaide com um moço que esteve ausente do Rio de Janeiro, e a quem ele ofereceu de dote trinta

contos de réis.

Ao proferir estas palavras sentiu-se um fugaz tremor na voz sempre tão límpida da moça, que logo

após tomou um timbre ríspido.

O Lemos ficara roxo de vermelho que já era; e para disfarçar o seu vexame remexia a cabeça mui

desinquieto, com o dedo a repuxar e alargar o colarinho, como se este o sufocasse.

Aurélia demorou um instante o seu frio olhar no semblante do velho; depois desviando com

placidez a vista para fitá-la na página aberta de sua carteirinha, deu tempo ao tio de reportar-se, o

que foi breve. O Lemos tinha o traquejo do mundo.

- Trinta contos?... observou ele. Já não é mau começo!

Aurélia continuou:

- É preciso quanto antes desmanchar este casamento. A Adelaide deve casar com o Dr. Torquato

Ribeiro de quem ela gosta. Ele é pobre; e por isso o pai o tem rejeitado, mas se o senhor

assegurasse ao Amaral que esse moço tem de seu uns cinqüenta contos de réis, acha que ele

recusaria?

- Suponha que eu assegurasse isso. Donde sairia esse dinheiro?

- Eu o darei com o maior prazer.

- Mas, minha menina, para que nos vamos nós intrometer nos negócios alheios?

- O senhor é bastante perspicaz para perceber aquilo que debalde lhe procuraria ocultar. Prefiro

confiar-me sem reservas à sua lealdade.